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O gigante enterrado, de Kazuo Ishiguro

19 setembro 2018


Ficha Técnica:
Título: O gigante enterrado | Autor: Kazuo Ishiguro | Ano: 2015 | Páginas: 396 | Idioma: português Editora: Companhia das Letras | Tradução: Sonia Moreira

O gigante enterrado, de Kazuo Ishiguro, é um dos livros que comprei naquela visita ao sebo que decidi documentar no blog (você pode conferi-la na íntegra aqui). Depois de ler minha primeira obra de Ishiguro (Um artista do mundo flutuante, cuja resenha você pode ler aqui) e gostar bastante do estilo do autor, já estava de olho em um novo livro do nipo-britânico pra devorar. Um belo dia, dei a sorte de me deparar com essa edição linda e nova em folha de O gigante enterrado a preço de banana no Sebo Cultura.

Acontece que O gigante enterrado – e eu só entenderia isso na hora de ler – não é o típico livro do Ishiguro. Antes de lançá-lo, nosso escritor e grande ganhador do Prêmio Nobel de Literatura do ano passado passou dez anos em um jejum literário. Depois ou durante essa longa pausa, ele resolveu elaborar uma obra diferente e muito ambiciosa. Não sei se eu estava preparada para esse salto, mas mesmo assim fui lá e me joguei na leitura, né!

O livro apresenta a história de Beatrice e Axl, um casal de idosos que vive em uma aldeia medieval onde todas as pessoas parecem ter perdido ou estar progressivamente perdendo suas memórias: o passado mais remoto já é um mistério para todos e os pequenos acontecimentos recentes são lembrados apenas por alguns. Esse "esquecimento" é atribuído à uma névoa que cobre a aldeia bretã e não se sabe ao certo de onde veio aquilo ou quando começou. Perturbados com essa situação, Axl e Beatrice conseguem recuperar a memória remota de um filho que tiveram e decidem sair de sua terra natal para procurá-lo.

A história tem tom de fantasia: saindo da aldeia, os perigos são muitos, incluindo ogros, dragões, fadas, exércitos inimigos. Nesse ponto, O gigante enterrado tem aquele gostinho de aventura medieval com disputas de espadas entre cavaleiros de terras inimigas e caça a dragões. No entanto, o foco do livro não está em seu universo físico, a meu ver, mas em seu aspecto psicológico: a maneira como se propõe discutir sobre a memória coletiva. 

A memória coletiva consiste no conjunto de lembranças, histórias e tradições que são passadas adiante em determinada comunidade, de modo a preservar suas origens e sua cultura. Em O gigante enterrado, temos uma comunidade que parece ter, ao longo do tempo, distorcido e por fim perdido  de vez sua memória coletiva. O principal motivo pra isso parece ser o caráter negativo dessas lembranças: algo muito ruim foi feito ali, com muitas mortes, e às vezes a única defesa que as pessoas têm contra um evento traumático é o esquecimento. Enquanto Beatrice quer a todo custo reaver suas memórias, Axl acredita que algumas coisas devem ser deixadas para sempre no passado.

Ao longo de sua jornada em busca do filho, o casal principal encontra outros personagens importantes da história, como é o caso do menino Edwin, um garoto rejeitado por sua comunidade por ter sido supostamente mordido por um ogro; o guerreiro Winstan, grande herói ambicioso da aldeia saxã; e Sir Gawain, cavaleiro sobrinho do falecido Rei Artur, que está atrás de uma perigosa dragoa. Tais personagens são tão importantes para a história quanto Beatrice e Axl e os considerei até mais cativantes do que esses protagonistas, apesar de o relacionamento deles consistir em uma das partes centrais da trama e ter lá sua carga poética.  

Unidos pela convergência de seus caminhos, esse grupo diverso enfrenta diversos problemas ao longo da estrada, sofrendo tanto ameaças às suas vidas quanto conflitos de ordem psicológica, ocasionados pelo retorno de algumas memórias e pela rixa existente entre Winstan e Sir Gawain. Mesmo assim, Axl e Beatrice mantém-se lado a lado, cuidando um do outro e alimentando esperanças de encontrar um filho do qual eles praticamente não guardam nenhuma lembrança. Recordar um passado doloroso ou não se lembrar de nada, o que é melhor (ou pior)?

Quanto ao estilo, é com certo pesar que conto para vocês que a escrita de Ishiguro não me capturou dessa vez, como havia feito em Um artista do mundo flutuante. Sou uma leitora que ama descrições, de modo que "perder" longos parágrafos assim – quando bem feito – não costuma ser um problema pra mim, mas dessa vez foi. Achei a narrativa muito prolixa, de modo que às vezes sentia vontade de pular algumas páginas quando as coisas estavam muito "mornas" e partir logo para um momento de maior ação ou drama. Isso fez com que eu demorasse muito mais do que o normal para terminar a leitura, algo que me deixa desapontada comigo mesma e com o livro.

A obra é dividida em quatro partes: essa trajetória mais lenta da narrativa predomina nas duas primeiras. O fato de, no início, você não saber de nada do que está acontecendo e ficar tão confusa quanto os próprios personagens esquecidos também não ajuda. As coisas melhoram na terceira e quarta partes, com novas revelações interessantes, e a obra é fechada com um final do qual eu, particularmente, gostei bastante, achei muito sensível. Deu até pra perdoar um pouco as partes menos interessantes do caminho.

O gigante enterrado é um livro que eu recomendaria para os fãs de épicos medievais que estão interessados em experimentar algo um pouco diferente do comum: uma história de aventura que foca menos na fantasia e em "lutinhas" de cavaleiros e mais no aspecto dos sentimentos, nas questões referentes à memória, família, amor, guerra, morte. É uma história inteligente e cheia de simbolismos interessantíssimos, mas acredito que se você não for especialmente fã da ambientação e só cair de pára-quedas nas páginas desse livro – como eu fiz, de certa forma –, talvez acabe não o aproveitando tanto. 

Um artista do mundo flutuante, de Kazuo Ishiguro

20 julho 2018


Um artista do mundo flutuante é o segundo romance publicado pelo escritor nipo-britânico  e grande ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 2017!  Kazuo Ishiguro. Trata-se do primeiro livro que eu leio desse autor, o que pode parecer uma escolha "esquisita" para muitos, porque ele tem outros romances bem mais famosos, como é o caso de Não me abandone jamais e os Vestígios do dia, que já ganharam até adaptação pro cinema. (É que, assim, gente... Sou dessas. Peguei o livro na mão, conhecia a fama do autor, senti vontade de ler e comprei. Pesquisar por qual livro seria melhor começar a conhecer a obra do Ishiguro? Nah. O negócio aqui é pura intuição! Risos.) Já posso começar dizendo que não me arrependo nada e apreciei muito a leitura, quero o próximo pra ontem!

O romance se passa no Japão pós-Segunda Guerra Mundial, entre os anos de 1948 e 1950. Como não é de se espantar, o país estava passando por várias mudanças nesse período e não era um cenário nada fácil para os japoneses, entre eles, Masuji Ono, nosso narrador. Ono é um renomado artista já aposentado, que desfrutou de muita glória em sua juventude, pintando durante o dia e curtindo a noite em bares, onde fomentava o orgulho japonês e a agitação antes da Guerra. Agora que já parece ter deixado a pintura no passado e está a lidar com assuntos mais tradicionais da família – como a negociação de um casamento para sua filha mais nova, Noriko –, o velho Ono começa a refletir sobre os caminhos que tomou na profissão e o alcance da influência política de sua arte.

A motivação inicial que parece despertar o olhar desse senhor para o seu passado e o passado de seu país é justamente o "problema" do acordo matrimonial para Noriko, que já tem vinte e seis anos (na época, vocês devem imaginar, já tava "ficando pra tia" na visão daquela sociedade). Ele percebe, a partir de um conselho da filha mais velha e já casada, Setsuko, que as consequências de alguns de seus atos de muito tempo atrás ainda têm influência na vida de sua família. Talvez o que estivesse atrapalhando as negociações seria uma "rejeição" direcionada ao próprio Ono, devido ao seu trabalho no passado. Que trabalho? Qual a influência que um artista pode ter em uma nação? Qual a relação de Ono com a Guerra? Afinal, ele está sentindo orgulho ou remorso? Ou ambos? (#descubra)


Ficha Técnica:
Título: Um artista do mundo flutuante | Autor: Kazuo Ishiguro | Ano: 1986 | Páginas: 225 | Idioma: português Tradução: José Rubens Siqueira Editora: Companhia das Letras

A narrativa de Um artista do mundo flutuante é bem nostálgica e não respeita sempre a ordem cronológica, pois se faz sobre as memórias de um narrador não confiável. Além de por vezes carregar suas palavras de falsa modéstia e uma inocência que não sabemos bem se corresponde à realidade, ele  vai sobrepondo lembranças, algumas mais frescas do que outras. Não é raro uma menção como "não me lembro se foi exatamente isso que fulano disse, mas se não me engano foi assim". Ele às vezes se perde em um assunto, mais tarde retoma, lembra de outra situação ali no meio, opina... É preciso analisar seu relato com um olhar bem crítico e atento aos detalhes. Ademais, Ono é o típico homem japonês de sua época: o leitor vai se deparar mais de uma vez com alguns posicionamentos machistas e conservadores, especialmente em relação às suas filhas. O legal é que nem sempre elas cedem às ordens do pai, especialmente Noriko, que é até bem "debochada".  

Ao contar a própria história, Ono acaba contando também a história de um Japão antes e depois da Segunda Guerra Mundial. Isso acontece tanto em um aspecto visual, quando ele relata as mudanças dos bairros de sua cidade, quanto no aspecto social, psicológico e cultural daquela população. Acho que não resta nenhuma dúvida de que uma Guerra, especialmente uma Guerra perdida, muda muito uma nação, sob todos os aspectos. O Japão, com suas peculiaridades culturais, tem uma reação muito particular, e no livro são apresentadas várias situações dessa época. Alguns exemplos são: o fenômeno dos suicídios por desonra, o crescimento da mentalidade liberal e a influência dos Estados Unidos na indústria cultural.

A escrita de Kazuo Ishiguro é muito fluida e fácil de acompanhar. Ele domina as complexidades do narrador não confiável e apresenta a velhice de uma maneira muito convincente; poderia ser o seu avô contando a história dele para você, com toda aquela nostalgia e reflexão sobre a validade e o peso das coisas que ele fez no passado. Vi por aí que fãs desse escritor dizem que seus outros livros são mais "movimentados", enquanto esse seria mais "parado". Não achei o romance monótono; entendi que se trata apenas de uma história mais simples e humana, de memória. Um artista do mundo flutuante é uma leitura agradável e muito interessante, imperdível para quem se interessa por História e pela cultura japonesa. 

5 Distopias que você precisa ler!

12 julho 2018



Olá, leitores! Hoje vou falar um pouco sobre algumas distopias que considero essenciais para os amantes do gênero. Dessa forma, elaborei um Top 5 dos melhores títulos distópicos que já li e que pretendo ler. 

Para quem não sabe, esse gênero se baseia nas estruturas sociais, onde se reforça o lado negativo de uma civilização apresentada como ideal. Demonstrando a desigualdade e problemas sociais promovidos geralmente por um poder autoritário e opressor, que visa manipular e alienar pessoas.

Além disso, é possível perceber uma estrutura comum da distopia na literatura, onde se tem geralmente um governo corrupto que utiliza diversos mecanismos para controlar a população e a partir desse contexto, a história enfatiza um indivíduo que passa por uma tomada de consciência, percebendo todos os problemas sociais ao seu redor. Assim, o personagem principal junto a seus aliados luta contra esse sistema, em busca de uma ''libertação''.

Vale ressaltar que muitas distopias clássicas se tornaram populares e influenciaram diretamente livros aclamados pelo público jovem, como por exemplo, a trilogia Jogos Vorazes e Divergente. Dessa maneira, procurei elencar algumas obras que considero mais importantes para a literatura distópica.

Cinco distopias clássicas que você precisa ler: 

1- 1984, George Orwell.

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Publicada em 1949, o contexto da história se passa a partir de um sistema totalitário governado pelo ''Grande Irmão''. Esse líder é considerado como um Deus pela população, ele controla tudo e todos através de um aparelho denominado teletela, que visa observar e transmitir notícias para os cidadãos. 
É nesse contexto que conhecemos Winston, um rapaz que odeia o partido, mas depende deste, pois trabalha em um ministério do governo com a função de alterar o passado, ou seja, ao sair uma notícia onde os dados não batem com algo que o Grande Irmão disse em um passado remoto ou não, os jornais são alterados. Winston, enquanto vive pressionado a aceitar o sistema vigente, acaba por, intimamente, se rebelar contra ele e, ao conhecer Julia, por quem se apaixona, ambos partem em uma revolta secreta contra o Partido, unidos pelo amor entre si e pelo desejo de liberdade.
Li o livro recentemente, já tinha conferido outras obras de Orwelll, mas essa com certeza é a melhor e mais impactante. 

2- Admirável Mundo Novo, Aldous Huxley.

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''Ano 634 df (depois de Ford). O Estado científico totalitário zela por todos. Nascidos de proveta, os seres humanos (pré-condicionados) têm comportamentos (pré-estabelecidos) e ocupam lugares (pré-determinados) na sociedade- os alfa no topo da pirâmide, os ípsilons na base. A droga soma é universalmente distribuída em doses convenientes para os usuários. Família, monogamia, privacidade e pensamento criativo constituem crime. Os conceitos de 'pai' e 'mãe' são meramente históricos. Relacionamentos emocionais intensos ou prolongados são proibidos e considerados anormais. A promiscuidade é moralmente obrigatória e a higiene, um valor supremo. Não existe paixão nem religião. Mas Bernard Marx tem uma infelicidade doentia- acalentando um desejo não natural por solidão, não vendo mais graça nos prazeres infinitos da promiscuidade compulsória, Bernard quer se libertar. Uma visita a um dos poucos remanescentes da Reserva Selvagem, onde a vida antiga, imperfeita, subsiste, pode ser um caminho para curá-lo.'' (Sinopse)
Admirável mundo novo é um dos livros mais incríveis que já tive a oportunidade de ler, foi o meu primeiro contato com a literatura distópica e provavelmente o meu favorito.


3- Fahrenheit 451, Ray Bradbury. 

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''Escrito após o término da Segunda Guerra Mundial, em 1953, 'Fahrenheit 451', de Ray Bradubury é um texto que condena não só a opressão anti-intelectual nazista, mas principalmente o cenário dos anos 1950, revelando sua apreensão numa sociedade opressiva e comandada pelo autoritarismo do mundo pós-guerra. O livro se propõe a descrever um governo totalitário, num futuro incerto, mas próximo, que proíbe qualquer livro ou tipo de leitura, prevendo que o povo possa ficar instruído e se rebelar contra o status quo. Tudo é controlado e as pessoas só têm conhecimento dos fatos por aparelhos de TVs instalados em suas casas ou em praças ao ar livre. A leitura deixou de ser meio para aquisição de conhecimento crítico e tornou-se tão instrumental quanto a vida dos cidadãos, suficiente apenas para que saibam ler manuais e operar aparelhos.'' (Sinopse)
Confesso que essa obra é para mim, a mais desejada atualmente. Já conhecia o título, mas ainda não tive a oportunidade de ler. Recentemente assisti a adaptação cinematográfica e me surpreendi bastante, desde então, estou ansiosa para essa leitura.


4- O Conto de Aia, Margaret Atwood.


Resultado de imagem para o conto de aia foto livro''A história de 'O conto da aia' passa-se num futuro muito próximo e tem como cenário uma república onde não existem mais jornais, revistas, livros nem filmes - tudo fora queimado. As universidades foram extintas. Também já não há advogados, porque ninguém tem direito a defesa. Os cidadãos considerados criminosos são fuzilados e pendurados mortos no muro, em praça pública, para servir de exemplo enquanto seus corpos apodrecem à vista de todos. Nesse Estado teocrático e totalitário, as mulheres são as vítimas preferenciais, anuladas por uma opressão sem precedentes. O nome dessa república é Gilead, mas já foi Estados Unidos da América. As mulheres de Gilead não têm direitos. Elas são divididas em categorias, cada qual com uma função muito específica no Estado - há as esposas, as marthas, as salvadoras etc. À pobre Offred coube a categoria de aia, o que significa pertencer ao governo e existir unicamente para procriar. Offred tem 33 anos. Antes, quando seu país ainda se chamava Estados Unidos, ela era casada e tinha uma filha. Mas o novo regime declarou adúlteros todos os segundos casamentos, assim como as uniões realizadas fora da religião oficial do Estado. Era o caso de Offred. Por isso, sua filha lhe foi tomada e doada para adoção, e ela foi tornada aia, sem nunca mais ter notícias de sua família. É uma realidade terrível, mas o ser humano é capaz de se adaptar a tudo. Com esta história, Margaret Atwood leva o leitor a refletir sobre liberdade, direitos civis, poder, a fragilidade do mundo tal qual o conhecemos, o futuro e, principalmente, o presente.'' (Sinopse)

Confesso que só li essa obra devido a aclamada série “The Handmaid’s Tale” que é baseada nesse livro incrível. O Conto de Aia é uma obra que com certeza irá te deixar desconfortável e fazer com que se reflita sobre diversos temas que ainda são muito atuais.
Se quiser saber mais detalhes sobre o livro e a série Clique Aqui

5- Laranja Mecânica, Anthony Burgess.
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''Narrada pelo protagonista, o adolescente Alex, esta brilhante e perturbadora história cria uma sociedade futurista em que a violência atinge proporções gigantescas e provoca uma reposta igualmente agressiva de um governo totalitário. A estranha linguagem utilizada por Alex - soberbamente engendrada pelo autor - empresta uma dimensão quase lírica ao texto. Ao lado de '1984', de George Orwell, e 'Admirável Mundo Novo', de Aldous Huxley, 'Laranja Mecânica' é um dos ícones literários da alienação pós-industrial que caracterizou o século XX. Adaptado com maestria para o cinema em 1972 por Stanley Kubrick, é uma obra marcante: depois da sua leitura, você jamais será o mesmo.'' (Sinopse)
Laranja Mecânica é um clássico do cinema. O filme é cheio de simbolismos, fato pelo qual se torna ainda mais interessante. Entretanto, tive dificuldades para lê-lo, que na minha opinião tem uma narrativa um tanto quanto densa. Mas isso não me impediu de adorar a obra e considerá-la como uma das minhas favoritas.

Atlas de Nuvens, de David Mitchell

04 julho 2018



Atlas de Nuvens, de David Mitchell, é considerado um clássico da literatura contemporânea. Eu havia terminado de ler esse livro há alguns meses já, mas sentia que não seria capaz de fazer um comentário à altura dele. Dias atrás acabei decidindo, com saudade, reler algumas partes do romance. Percebi que estava pronta e precisava falar pra vocês dessa obra ao mesmo tempo maluca e genial. 

O romance do britânico David Mitchell consiste em um "combo" de seis histórias distintas, de personagens distintos, em lugares distintos e épocas distintas; no entanto, estão todas conectadas entre si por determinados elementos. Temos ali passado, presente e futuro. Tudo começa no século XIX, quando acompanhamos o diário do advogado Adam Erwing em alto-mar. Ele nos conta como acaba protegendo um escravo que estava apanhando no navio, ao mesmo tempo que começa a se sentir cada vez mais fraco, como se tivesse sido acometido por uma doença misteriosa. 

No século seguinte, década de 1930, esse diário vai parar nas mãos de Robert Frobisher, um músico desprezado pela própria família, com jeito de "malandro", que acaba se tornando escrivão de um respeitado pianista. Frobisher troca cartas com seu amante, Rufus Sixsmith – sim, representatividade LGBT! Yay! –, relatando sua vida na Bélgica. Nesse período, ele compõe o grande "Sexteto Atlas de Nuvens". Segundo Frobisher, cada solo do sexteto tem seu próprio idioma de tonalidade, escala e cor – óbvia referência às seis diferentes histórias do livro.


Ficha Técnica:

Título: Atlas de Nuvens | Autor: David Mitchell | Ano: 2004 | Páginas: 541 | Idioma: português | Editora: Companhia das Letras

Já na década de 1970, a jornalista decadente Luisa Rey conhece Rufus Sixsmith – o ex-amante de Frobisher –, enquanto se envolve em uma perigosa investigação sobre os problemas ambientais de uma usina nuclear. Luisa acaba tendo contato com as cartas, guardadas com carinho, que Sixsmith recebia de Frobisher, quarenta anos antes. A história da jornalista rende um romance policial, nunca publicado, que por sua vez, vai parar nas mãos de Timothy Cavendish, um velho editor que acaba sendo internado em um asilo por engano enquanto tenta escapar de criminosos. 

A seguir, um grande salto temporal é dado e vamos parar na Coréia futurista, onde clones são fabricados para fazer o trabalho que os humanos desprezam. É aí que conhecemos Sonmi, um desses clones femininos, que acaba desenvolvendo uma inteligência artificial além da desejada e começa a se envolver nos planos de uma Revolução. No meio de tudo isso, ela tem acesso à um filme que conta as desventuras do editor Timothy Cavendish. A revolta dos clones acaba trazendo o caos, de modo que a última história do livro se passa num futuro distópico, onde o jovem Zachry conta sobre acontecimentos misteriosos em sua tribo e o culto à deusa Sonmi. Ufa!

Atlas de Nuvens interliga todas essas histórias em detalhes, dando a sensação de que poderia estar acontecendo algo como uma reencarnação ou uma "transmigração de almas" através do tempo. O autor amarra diferentes experiências, emoções e estágios da sociedade, juntando história, romance, suspense policial e sci-fi. Cada parte do livro tem sua própria linguagem e estilo, devido aos vários narradores, de modo que não acaba cansando, porque quando você menos espera, já vem novidade. Quem lê esse livro não pode esperar que tudo lhe seja entregado de bandeja: há muito espaço para interpretação, aberturas e mistérios, como se nós estivéssemos recebendo todos esses documentos diversos em mãos e tivéssemos nós mesmos que montar o quebra-cabeça.

Concluo essa resenha dizendo que Atlas de Nuvens não é uma leitura das mais fáceis, porque exige essa interpretação da parte do leitor, mas é certamente recompensadora. A parte de Frobisher é definitivamente a minha favorita, não apenas pela relação dele com Sixsmith, é claro, mas porque adorei seu jeito cômico-irônico e ácido de relatar os acontecimentos; foi um personagem ao qual me apeguei muito e de quem senti saudades no resto da leitura. A edição em comemoração dos 50 anos da Companhia das Letras é LINDÍSSIMA, contando com uma bela jaqueta com colagens de fotos que remetem às diversas épocas retratadas no livro. 

P.S.: Atlas de Nuvens foi adaptado para o cinema em 2012, no filme A Viagem (achei um pecado mudarem o nome na tradução, mas ok), com Tom Hanks e outros grandes nomes da indústria cinematográfica. Dificilmente um filme consegue transmitir a grandiosidade de um livro, ainda mais quando é um livro complexo como esse, mas acabei gostando bastante da adaptação até. Vale a pena conferir!


Há tantas verdades quanto há homens. De vez em quando chego a vislumbrar uma Verdade mais verdadeira, escondida por trás de simulacros imperfeitos de si própria, mas, à medida que me aproximo, ela se move, mergulhando mais fundo no pântano agreste da cizânia.

Para Poder Viver, de Yeonmi Park

14 maio 2018


O clube do livro Infinistante do mês de Maio trouxe duas opções de livros, e um deles foi o Para poder viver, e eu não tive dúvidas de que queria ler essa história. Já adianto que o livro entrou para a minha lista de favoritos do ano.


Um de meus grandes temores sempre foi perder o controle de minhas emoções. Às vezes eu sentia que a raiva era uma bola muito densa dentro de mim, e sabia que se alguma vez a deixasse sair, ela poderia explodir e eu não conseguiria contê-la. Tenho medo de começar a chorar e nunca mais conseguir parar. Assim, eu sempre preciso manter esses sentimentos bem fundo dentro de mim. Quem me conhece pensa que sou a pessoa mais para cima e positiva que já conheceu. Minhas feridas estão bem ocultas.

Para poder viver é uma autobiografia de uma norte-coreana que desde criança lutou pela sua vida em um país opressor. Yeonmi Park nasceu em Hyesan e lá vivia com seus pais e sua irmã mais velha, a Eunmi. Em seu relato conta como ela viveu e como os norte-coreanos vivem sob a ditadura de um “Líder Supremo”.


Ficha Técnica:
Título: Para Poder Viver| Autora: Yeonmi Park | Ano: 2016 | Páginas: 328 | Idioma: Português | Editora: Companhia das Letras | Gênero: Autobiografia

É difícil imaginar que enquanto muitos estavam tendo momentos felizes, acesso a água, energia, comida, diversão e outras coisas, do outro lado do mundo pessoas estavam passando fome, chegando a ter que comer insetos apenas para encher a barriga, vivendo em condições desumanas.

A autora nos mostra a realidade cruel da vida dos norte coreanos, o tráfego de mulheres na China, e como foi a luta pela sua liberdade. A história se divide em três partes, Coreia do Norte, China e Coreia do Sul. É uma história intensa e emocionante. Eu lia e não conseguia acreditar que mesmo em um ano não tão distante, pois Yeonmi nasceu em 1993, parecia que Yeonmi estava vivendo na época que se quer existia uma televisão. Os norte coreanos não podem assistir a filmes estrangeiros, quando eles conseguiam assistir era por contrabando que vinha da China, mas tudo tinha que ser muito bem escondido, pois se a polícia encontrasse algo indevido, as pessoas eram enviadas para campos de reeducação ou ainda pior, dependendo do crime, por mais simples que fosse, a morte era certa por fuzilamento.


Não tinha ideia do que era um “hobby”. Quando me explicaram que era alguma coisa que eu ficava feliz ao fazer, não pude imaginar tal coisa. Supunha-se que meu único objetivo era fazer o regime feliz. E por que alguém iria se importar com o que eu queria ser quando crescesse? Na Coreia do Norte não havia eu - somente nós.

Depois de conseguir fugir da Coreia do Norte, aos 13 anos, Yeonmi tinha esperança de encontrar a liberdade na China, mas nada disso aconteceu, estava começando mais uma batalha pela sua sobrevivência. É nesse momento da história que sabemos como ela e sua mãe foi traficada para ser vendida.

Eu poderia abordar muitos assuntos importantes sobre o livro, mas a resenha teria que se estender bastante, e é por isso que eu indico que você leia este livro para saber mais sobre a história de uma mulher que não desistiu da sua vida e sempre buscou a sua liberdade, mesmo diante de todas as lutas que passou. Foi um livro que me fez sair da minha zona de conforto e ainda me despertou para um novo olhar sobre a realidade do mundo. É uma história inspiradora e que me deixou emocionada.


Aprendi outra coisa naquele dia: todos temos nossos próprios desertos. Podem não ser iguais ao meu deserto, mas sempre teremos de atravessá-los para encontrar um propósito na vida e para sermos livres.

Dias Perfeitos, de Raphael Montes

05 dezembro 2017


Eu tive conhecimento do trabalho de Raphael Montes através do booktube. Vendo resenhas e pesquisando sobre os livros dele, fiquei muito interessada porque são raros os autores nacionais que escrevem ficção a ganharem os holofotes. E o menino ganhou e muitos holofotes, tendo hoje seus romances adaptados a peças de teatro e publicados em vários países pelo mundo, até na Polônia! 


Então surgiu a oportunidade de conhecer de verdade o Raphael. Ele esteve na Feira do Livro em Joinville neste ano e foi lá que além de me interessar ainda mais por suas obras descobri que o cara é incrível, além de muito atencioso com seus leitores. E foi lá também que adquiri meu exemplar de “Dias Perfeitos”. 


Já havia feito aqui no blog uma resenha sobre O Vilarejo, um livro de contos de terror do autor. Porém, a experiência de um romance é totalmente diferente tanto para o escritor quanto para o leitor, claro.


A história é narrada em terceira pessoa e me proporcionou um sentimento de indignação em vários momentos. Mesmo sabendo desde a sinopse como é a personalidade de Téo e ver logo no início da história o quão indiferente ele é aos sentimentos humanos, me peguei em vários momentos o chamando de maluco com muita raiva, de tal forma que se ele fosse um ser humano real e eu o visse na minha frente teria vontade de dar um tapa no rosto dele! 


Sentia-se um monstro. Não gostava de ninguém, não nutria nenhum afeto para sentir saudades: simplesmente vivia. Pessoas apareciam e ele era obrigado a conviver com elas. Pior: era obrigado a gostar delas, mostrar afeto. Não importava sua indiferença desde que a encenação parecesse legítima, o que tornava tudo mais fácil. (P. 12)


Téo encontra Clarice em uma festa, os dois trocam algumas palavras e Clarice o beija. Não porque estava apaixonada, mas porque isso é o tipo de coisa que ela faz. Ela é uma moça segura de si, espontânea e um pouco impulsiva. A partir disso, Téo fica obcecado, a ponto de perseguir e sequestrar a moça com o intuito de se conhecerem melhor e fazê-la se apaixonar por ele. Nada creepy, não é? No início, a impressão que se tem é de que Téo não faz mal por querer, que as coisas vão acontecendo e uma ação leva a outra… Porém, quando você já o conhece bem, você percebe que nenhuma de suas ações são impensadas. Apenas não é de se esperar que ele chegue tão longe quanto chegou…

O garoto cursa medicina e por isso possui conhecimentos e acesso a substâncias que “facilitam” suas ações. Téo também é extremamente manipulador, e por mais inteligente que Clarice seja, em determinado momento fica difícil mesmo para ela distinguir o que é realidade do que é manipulação.


Téo continuava a desprezar a raça humana, mas ao menos agora era um desprezo desinteressado, quase piedoso. Finalmente, sentia amor. (P. 99)

A única razão de eu não ter dado 5 estrelas para esse livro é que fiquei bastante confusa com o final, e mesmo agora, passado já algum tempo da leitura, não consigo definir se essa confusão é positiva ou negativa. Ainda assim, recomendo a leitura deste livro a todos que gostam de suspense e romance policial e a qualquer um que queira conferir por si próprio a diversidade que temos em nossa literatura brasileira.



ISBN-10: 8535924019
Ano: 2014
Páginas: 280
Idioma: Português
Editora: Companhia das Letras
Gênero: Ficção, literatura brasileira, suspense
Nota: 4,5/5

| RESENHA #148 | O ERRO, ELLE KENNEDY (AMORES IMPROVÁVEIS #2)

03 fevereiro 2017

ISBN-10: 8584390413
Série: Off Campus (Amores Improváveis #2)
Título: O Erro
Autora: Elle Kennedy
Ano: 2016
Páginas: 279
Idioma: português 
Editora: Paralela
Gênero: Romance, new adult
Nota: 4,5/5

Sinopse: Logan parece viver uma vida de sonhos. Com um talento incrível para jogar hóquei e um charme inato para conquistar mulheres, ele é uma das maiores estrelas da universidade de Briar. Mas por trás do característico sorriso maroto, ele esconde duas grandes angústias – a primeira, estar apaixonado pela namorada de seu melhor amigo. A segunda, saber que sua vida, após a formatura, se tornará um beco sem saída. Um dia, por acaso, ele conhece Grace, uma garota tão encantadora quanto intrigante. Tudo nela parece ser original e deliciosamente contraditório – tímida, mas ao mesmo tempo vibrante. Doce, mas ao mesmo tempo forte e confiante. A cada encontro, Logan se vê mais e mais envolvido. Mas um grande erro colocará o relacionamento desses dois jovens em risco. Agora, Logan terá que se esforçar para reconquistar Grace – nem que para isso ele precise amadurecer e encarar de frente as suas questões mais profundas e doloridas.

Eu janeiro eu enfrentei uma ressaca literária daquelas bem pesadas. Nada do que eu estava lendo, estava fluindo e funcionando. Ainda bem que existem livros como O Erro para nos salvar quando a coisa aperta. Acabei lendo o livro em ebook e estou louca para adquirir a edição física, pois estou amando a série. 

Em "O Erro", temos a história de Logan e Grace, duas pessoas com vidas bem distintas que acabam se cruzando sem querer. Logan vivia a vida dos sonhos, ou pelos aparentava viver, um incrível jogador de hóquei e muito, muito bonito. Aquele tipo homem que todas as mulheres querem sabe? No entanto, ele carrega um fardo enorme: gostar da namorada de seu melhor amigo. Com todas essas angústias guardadas, ele cai na farra, transa com várias meninas e tenta superar esse fato, até que um dia ele conhece por acaso Grace, uma garota bem diferente do que ele estava costumado a conhecer.

Grace é uma menina linda, dedicada a sua faculdade, doce e gentil, no entanto, carrega o "fardo" de ainda virgem e apesar de ter tido várias oportunidades de transar na faculdade, ela sempre acaba hesitando. Logan e Grace acabam se conhecendo melhor e a cada encontro, as coisas vão tomando um rumo bem diferente para a vida de ambos. Com uma narrativa deliciosa, Elle Kennedy nos guia por uma história de amor muito fofa e divertida. 

“Gosto de você, Grace.”
“Por quê?”, eu o desafio. “Por que você gosta de mim?”
“Porque…” Ele leva a mão ao cabelo escuro. “Você é divertida. É inteligente. Doce. Me faz rir. Ah, e só de olhar pra você eu fico louco.”

Eu tenho gostado bastante da série Off Campus, traduzida no Brasil como "Amores Improváveis". A leitura dos dois livros O Acordo e O Erro me proporcionaram momentos bem divertidos e legais. A Autora tem uma narrativa muito fluida e uma escrita bem envolvente e viciante. Neste livro em especifico, me apaixonei novamente pelos personagens, até mais que o primeiro livro. Adoro o fato da autora trazer temas bem pertinentes em seus livros, como alcoolismo e violência doméstica, mas de forma bem suave e leve, deixando o livro com essa carga menos pesada e ainda assim incentivando a reflexão sobre tais temas.

O Erro possui dois protagonistas muito carismáticos, o que deixa a leitura do livro bem mais prazerosa. O que eu mais gosto, é que os mocinhos nunca são bad boys ou possuem caráter duvidoso. A autora não romantiza relacionamentos abusivos, nem homens machistas, o que me deixa extremamente satisfeita e feliz com o que tenho encontrado. E se você também não gosta dessa romantização, com certeza irá adorar os pontos tocados nesse livro.

Elle Kennedy desenvolveu essa história sem pressa, foi nos dando pouco a pouco o que precisávamos para continuar conectados a história. E nada melhor do que se conectar com os personagens e com tudo o que o livro propõe, não é mesmo? O enrendo foi bem construído e toda a história foi bem amarrada. Por ser new adult, tem cenas de sexo, mas todas são plausíveis e diferenciadas, não tornando a leitura maçante ou absurda. 

O relacionamento foi construído com muitos elementos reais e importantes. Personagens humanizados, vulneráveis, sensíveis e com seus problemas, que felizmente foram bem desenvolvidos e explorados na trama. O livro em si, é um clichê, mas não deixa de ser adorável e deliciosamente maravilhoso para ler. 

Em síntese, O Erro foi mais um acerto (perdoem meu trocadilho). A história foi pertinente e envolvente e me deixou com o coração bem quentinho, além de ter me tirado da ressaca literária. Se você não conhece essa série ainda, sugiro que dê uma chance, porque ela é bem legal e vale super a pena.