Posts Recentes

Mostrando postagens com marcador featured. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador featured. Mostrar todas as postagens

Vox, de Christina Dalcher

13 novembro 2018


Vox foi o grande lançamento da Editora Arqueiro do mês de outubro, chegando ao país como uma grande promessa de ser o novo “O Conto da Aia”, romance que ficou conhecido no mundo todo após o grande sucesso que o seriado baseado na obra gerou. Aqui no blog você encontra uma postagem muito legal sobre o livro e o seriado.

Dito isso, e sabendo que a leitura de “O Conto da Aia” é realmente impressionante (assim como o seriado), acho que fica fácil imaginar o motivo da minha animação com essa nova promessa. E também se você acompanha outros blogs e canais literários, já deve ter visto alguma resenha sobre esta obra - e provavelmente uma resenha muito boa. Eu mesma vi várias, o que só me deixou ainda mais animada para a leitura. Porém, minhas expectativas não foram atendidas e vou contar aqui o porquê.
Os filmes são uma distração, a única vez em que ouço vozes femininas sem limitação de palavras. As atrizes têm uma autorização especial quando estão trabalhando. Suas falas, claro, são escritas por homens. (P. 21)
O livro tem, sim, muitos pontos fortes. A premissa é muito interessante, a narrativa é bastante fluída, com capítulos curtos e objetivos, o que faz da leitura bem ágil. Temos personagens bem fortes e decididos. Porém, para mim, os pontos negativos se sobressaem. 

O principal motivo de eu não ter gostado tanto da história é que, para mim, toda a mudança que acontece no livro, sobre como as mulheres acabam tendo apenas 100 palavras por dia, não foi bem justificada, logo, não me convenceu. Livros como “O Conto da Aia”, “1984” e “Admirável Mundo Novo” são distopias que nos tocam e nos assustam justamente por sua justificativa. Por nos aproximarem da história e nos fazerem sentir que aquilo poderia acontecer conosco, mas não foi o que senti com “Vox”. Eu também não me identifiquei com a personagem. Ela é uma doutora, mãe e pesquisadora, uma mulher realmente incrível, e é uma personagem muito real e cheia de falhas, como todos nós seres humanos naturalmente somos, ainda assim não me senti próxima a ela. Esses motivos, para mim, foram mais do que suficientes para a leitura do livro não ser tão extraordinária.
Tento me convencer de que não é minha culpa. Eu não votei no Myers.
Na  verdade, eu não fui votar.
E aqui está a voz de Jackie de novo, dizendo que sou uma merda complacente. (P. 97)
Da metade do livro em diante temos mais ação, surge uma resistência contra o governo e acontecem eventos muito interessantes, mas novamente, mais pro final da história a autora se perde e a história acaba de uma maneira não muito interessante.

Ainda assim, ficarei de olho nos próximos lançamentos de Christina Dalcher, porque acho que ela ainda nos trará grandes histórias. Esse é apenas seu romance de estreia. Para uma autora habituada e premiada por contos, entendo que é uma transição difícil, mas tenho certeza de que ainda vou ler alguma história da autora que me impressionará muito.
- A culpa não é sua.
Mas é. E minha culpa não começou quando assinei o contrato de Morgan na quinta-feira. Minha culpa começou há duas décadas, na primeira vez em que não votei, nas vezes incontáveis em que disse a Jackie que estava ocupada demais para ir a uma das suas passeatas, fazer cartazes ou ligar para meus congressistas. (P. 215)

Eu perdi o rumo, de Gayle Forman

08 novembro 2018


Eu perdi o rumo é a mais nova aposta da editora Arqueiro, um romance da autora Gayle Forman. Já li o livro Se eu ficar da mesma autora, é um livro que eu gosto bastante, talvez por isso elevei as expectativas neste novo.

Aqui conhecemos a história da garota Freya que perdeu sua voz quando precisa gravar as músicas para o seu álbum de estreia no meio musical. Harun é um garoto muçulmano que está em busca do seu amado. Já o jovem Nathaniel que vive com o pai, busca um sentido para a vida.

Os três jovens tem seus destinos entrelaçados diante de um acidente e assim passarão um dia de suas vidas juntos, cada um buscando o seu rumo.

"O tempo todo, as pessoas deixam de amar umas às outras."

Bom, o início dessa história, foi para mim, um tanto confusa. De cara conhecemos um pouco do que está acontecendo no presente da vida de Freya, logo depois começa a introdução do passado da cantora, como ela chegou naquele ponto. O livro vai seguindo com capítulos narrados em terceira pessoa mostrando o presente, e partes intituladas de 'A ordem da perda + nome do personagem' apresentando ao leitor o passado e aí a narrativa se torna em primeira pessoa. Realmente essa troca de narrador se torna confusa, mas aos poucos você vai se adaptando e entendo melhor a história de cada personagem.

Livro cedido em parceria com a editora.

Acredito que os temas abordados pela autora são bem importantes, e ela os trata com muita delicadeza. Gostei muito de como a história foi se construindo aos poucos. Acredito que o livro poderia ter mais umas cem páginas, ou menos, e assim a autora concluiria a história com maestria. O final ficou muito aberto, mas condizente com o que lemos.

Esse é um livro que mostra o poder de não lutar só e que a sua voz pode ser ouvida. Todos perdemos o rumo um dia, mas se lutarmos conseguiremos voltar ao rumo ou ainda criar um novo rumo.

Doce Lar, de Tillie Cole

11 outubro 2018

Aos vinte anos, Molly Shakespeare acha que já sabe de tudo. Ela leu Descartes e Kant. Ela estudou em Oxford. Ela sabe que as pessoas que te amam também te deixam. Mas quando Molly se muda da cinzenta Inglaterra para começar uma nova vida nos Estados Unidos, ela descobre que ainda tem muito a aprender. No Alabama os verões são mais quentes, as pessoas mais intimidantes e os alunos de sua nova escola muito mais viciados em futebol. Após conhecer o famoso quarterback Romeu Prince, Molly só consegue pensar em seus olhos castanhos, cabelos loiros, físico perfeito. E em como sua vida tranquila e solitária parece estar a ponto de mudar 


Ficha técnica:
Título: Doce Lar| Autor: Tillie Cole| Ano: 2018| Páginas: 319 | Idioma: português | Editora: Editora Planeta

Olá leitores, hoje vou falar um pouco sobre a minha mais recente leitura, o primeiro volume da Série Sweet, Doce Lar, da autora Tillie Cole. Essa foi a primeira vez que li algo da autora, confesso que estava muito ansiosa para conhecer a escrita da Tillie e esse livro me pareceu uma boa opção de leitura, visto que tinha uma história interessante e a capa é muito linda.

A autora, Tillie Cole, é mundialmente conhecida por seu romance Mil Beijos de Garotos. Quem já teve contato com sua escrita sabe que seus livros se tratam de romances arrebatadores com grande toque de drama. Como uma grande fã de New Adult, já conhecia a fama da Tillie e estava louca para ler algo da autora.

Doce Lar conta a história de Romeo Prince e Molly Shakespeare, dois universitários que não possuem nada em comum, mas que por força do destino acabam se apaixonando.

Molly é uma garota inglesa e se mudou para realizar seu mestrado em filosofia na universidade do Alabama e acaba se aproximando de Romeo, o Quarterback mais famoso do time de Futebol Americano local. Romeo é o típico bad boy, bonitão e desejado pelas garotas, já Molly é a garota certinha e super inteligente. Entretanto, ambos carregam uma bagagem emocional muito grande.

No decorrer da leitura percebemos o díficil relacionamento de Romeo com os pais, que visam controlar todos os atos do garoto, fazendo com que este se sinta sufocado e não tenha liberdade para realizar seus sonhos. Já Molly, cresceu sem os pais e aprendeu muito cedo a se virar, sendo uma pessoa mais retraída. Podemos dizer que ambos se completam e aprendem um com o outro, além disso, são um casal muito intenso. 

Ao longo do livro muitos fatos acontecem e o casal tem que superar muitas questões relacionadas ao passado e enfrentar pessoas que não estão dispostas a deixarem esse relacionamento fluir.

Sou a ingênua Julieta Capuleto, arriscando tudo para jantar com os Montéquio. - ele revirou os olhos e disse:Julieta não foi insensata o bastante para correr esse risco. Eles simplesmente fugiram juntos e se casaram - um bom plano. Mas minha versão da Julieta resolveu que conhecer seus inimigos mortais vai ajudar nossa causa. Logo veremos se é verdade, mas quero deixar registrado que acho que é uma ideia bem idiota.
- Mas uma coisa certamente é igual.
- O quê? - perguntei.
- Que eu sinto por você o que Romeu Montéquio sentia por Julieta - Ele entrelaçou os dedos nos meus - Eu também abriria mão de tudo por você.
Encostei a cabeça em seu ombro, vendo pelo para-brisa o sol cansado baixando no céu. Respeirei fundo e sorri comigo mesma. Nada que seus ais pudessem dizer ou fazer me afastaria dele.  

Doce Lar é o típico clichê, porém, alguns elementos da história são bem interessantes. Por exemplo, a autora trouxe muitos elementos da filosofia, o que achei bem interessante, também menciona muitos trechos do clássico Romeu e Julieta, de William Shakespeare.

Adorei a escrita da Tillie, mas infelizmente me decepcionei muito com a história. Na minha opinião era para o livro ter sido sensacional, porém deixou muito a desejar, muitos fatos não tiveram nexo. Recomendo a leitura para que tirem suas próprias conclusões.

Filme: Felicidade Por Um Fio

04 outubro 2018


Resultado de imagem para FELICIDADE POR UM FIO

Ano produção: 2018
Direção: Hifaa Al-Mansour
Duração: 98min
Classificação: Não recomendado para menores de 12 anos
Gênero: Drama, Comédia romântica, romance
País de Origem: Estados Unidos da América

Violet Jones (Sanaa Lathan) tem uma vida aparentemente impecável até que um acidente ao arrumar o cabelo faz com que as coisas em sua vida se desenrolem e ela começa a perceber que estava vivendo a vida que pensava que deveria viver, não a única que realmente queria. Violet começa a descartar algumas coisas que realmente não precisava, começando pelo cabelo perfeitamente endireitado e tenta encontrar um verdadeiro significado para a sua vida.

A gigante de streaming, Netflix, vem apostando cada vez mais em adaptações literárias e filmes que busquem exaltar a representatividade. Recentemente, as produções originais da Netflix receberam ótimas críticas e estão se destacando no cenário cinematográfico. Além disso, o público tem se encantado com suas novas produções e maneiras de abordar questões importantes de uma forma leve e descontraída. 

Confesso que sou uma grande fã das produções originais da Netflix, acredito que além de atrair público, as grandes mídias tem papel fundamental em influenciar e representar o público alvo, portanto, acredito que a produtora tem feito isso de uma maneira positiva e está inserindo questões fundamentais a serem discutidas.

Recentemente assisti a sua mais nova produção original, Felicidade Por Um Fio, e não cabe em palavras o quanto eu amei esse filme. Acredito que todas as mulheres, principalmente mulheres negras, deveriam assistir esse filme sensacional e que traz uma mensagem importante sobre amor próprio e empoderamento feminino.


Resultado de imagem para FELICIDADE POR UM FIO


Baseado no livro Nappily Ever After, o filme conta a história de Violet Jones, uma mulher inteligente, bem-sucedida e linda. Contudo, Violet sempre se importou muito com a sua aparência e para ela seu cabelo crespo sempre foi um problema, assim, desde pequena se sujeitava a procedimentos químicos para alisar o cabelo.

Durante toda sua vida, o cabelo foi seu maior incômodo e deixa-lo da maneira natural estava fora de cogitação, assim, ela sempre gastou muito dinheiro para manter o cabelo alisado. Até que um belo dia, Violet tem uma surpresa no cabeleireiro e sofre uma grande desilusão amorosa, assim, perante tanta confusão e após algumas doses de bebida alcoólica, ela resolve de forma inusitada raspar a cabeça.

Após raspar a cabeça, a personagem começa a se dar conta de muitas coisas a sua volta que antes não tinha percepção, inclusive a respeito da ditadura da beleza em que vivemos atualmente, onde os corpos e a aparência das mulheres devem ser perfeitos para se encaixar em um padrão de beleza imposto.

Ao longo da história, Violet aprende diversas lições e vamos acompanhando sua transição capilar, onde começa a aceitar seu cabelo de forma natural. Ainda, a personagem desenvolve um interesse amoroso inusitado e aprende muito com esse romance.


A imagem pode conter: 1 pessoa, sorrindo, texto


São raros os filmes que tratam a respeito da transição capilar e acredito que a proposta de Felicidade Por Um Fio foi muito empoderadora, afinal, Violet para de se importar tanto com a sua aparência e entende que o cabelo não é tudo, bem como, que seu cabelo crespo também é maravilhoso.

A personagem se aceita da forma que é e essa decisão traz muitos efeitos positivos em sua vida, já que se torna uma mulher muito mais empoderada e confiante. 

Além disso, achei incrível a representatividade que esse filme demonstra, já que tem como foco a mulher negra, na qual é a parcela ainda mais oprimida pela ditadura da beleza.

Felicidade Por Um Fio, é um filme sensacional sobre aceitação e amor próprio, e elucida que a busca pela aparência perfeita pode nos destruir, afinal, uma sociedade que consome perfeição não trabalha com realidade.


Hoje é o último dia do resto da sua vida, de Ulli Lust

24 setembro 2018

Hoje é o último dia do resto da sua vida, escrito pela Ulli Lust e publicado no Brasil pela Martins Fontes em 2015, é uma história em quadrinhos auto biográfica, onde a autora conta sobre a viagem que realizou com sua amiga Edi, da Áustria para a Sicília em 1984.

Sinopse: Um quadrinho sobre garotas punks cruzando a Itália de carona sem um centavo no bolso. Hoje é o último dia do resto da sua vida é uma crônica intimista, detalhada, engraçada, tocante e dramática sobre a viagem que a autora, Ulli Lust, e sua nova melhor amiga, Edi, fizeram da Áustria para a Sicília, em 1984. Uma história com sexo, drogas e também rock´n´roll. E passagens pela cadeia, tempo ruim, mendicância, lições de vida, novas amizades, atos de generosidade e de traição. E, na Sicília, alguns desentendimentos com a Organização Cujo Nome Você Não Deve Mencionar. Uma viagem iniciática no mundo tragicômico, sem nenhuma complacência e com boa dose de humor.

Ficha técnica:
Título: Hoje é o último dia do resto da sua vida | Autora: Ulli Lust | Ano: 2015 | Páginas: 464
Idioma: português | Editora: Wmf Martins Fontes

Se tem uma coisa que tenho procurado ler mais, essa coisa é quadrinhos. Principalmente os que trazem alguma história que me deixe totalmente imersiva, me deixando completamente a mercê dos acontecimentos e dos personagens. E essa HQ é definitivamente uma das melhores que eu já li na minha vida.

Eu não conhecia a história da autora, Ulli Lust, não li suas obras, mas a premissa dessa HQ auto biográfica me deixou muito curiosa para desvendar sua vida. Eu imaginava, antes de ler, que iria me identificar com algumas coisas e depois de terminar, esse pensamento se concretizou e tive uma das leituras mais complexas da minha vida. Hoje é o último dia do resto da sua vida, é uma história cheia de sarcasmo e melancolia, que andam juntos com a vontade imensa de viver a vida e se provar boa o suficiente.

Ulli Lust saiu em uma viagem com sua melhor amiga, Edi, para uma jornada de auto descobrimento que a rendeu boas histórias. É claro que nada sai como planejado e muita coisa acontece, ainda mais quando você pega carona com desconhecidos, não tem dinheiro e se vê em situações totalmente marginalizadas.

É muito bom quando lemos um livro que nos faz aprofundarmos e entrarmos de uma vez na história. Foi exatamente o que aconteceu com essa HQ. A autora tem uma maneira muito sádica (se podemos chamar assim) de escrever e contar sua triste história. O assédio, o abuso e tantas outras coisas que pelo qual passou, saltam das páginas e batem em nossa cara, mostrando como tudo pode se tornar um pesadelo.

Vemos uma adolescente com sonhos e vontades, se perdendo em um mundo cruel, machista, misógino e perverso. Foi difícil acompanhar toda a trajetória da autora e não se emocionar, não ficar revoltada com esse mundo, mas as lições de vida que tirei depois de acompanhar a jornada de Ulli, não tem preço. Valeu a pena a angústia que se instaurou em mim a cada folheada, porque sua maneira de contar me deixou completamente imersa.

Apesar de ter gostado MUITO de toda a história, confesso que depois da metade do livro, o ritmo caiu um pouco e a leitura deu uma leve arrastada, mas como eu estava vidrada em saber o desfecho da história, não ficou muito difícil passar por esse pequeno momento ruim de ritmo na narrativa. Como é uma história em quadrinhos, as ilustrações conversam com o leitor e aqui não é diferente, os tons de verde, cinza e preto demonstram toda a melancolia da personagem e de tudo o que estava acontecendo em sua vida.

A edição está linda, a capa é um primor e amo o título e de como ele remete a tantas coisas. Descobri em mim um amor por obras biográficas em quadrinhos e deixo aqui a minha profunda indicação. Hoje é o último dia do resto da sua vida traz a jornada de uma mulher que só queria viver e se encontrar, mas que se deparou com um mundo cruél para mulheres. Vale muito a pena a leitura, independente do seu gênero, mas é impossível não se sentir unida à personagem, sabendo que tudo o que ela passou, nós mulheres podemos passar a qualquer momento, em pleno 2018.

Leiam.


O gigante enterrado, de Kazuo Ishiguro

19 setembro 2018


Ficha Técnica:
Título: O gigante enterrado | Autor: Kazuo Ishiguro | Ano: 2015 | Páginas: 396 | Idioma: português | Editora: Companhia das Letras | Tradução: Sonia Moreira

O gigante enterrado, de Kazuo Ishiguro, é um dos livros que comprei naquela visita ao sebo que decidi documentar no blog (você pode conferi-la na íntegra aqui). Depois de ler minha primeira obra de Ishiguro (Um artista do mundo flutuante, cuja resenha você pode ler aqui) e gostar bastante do estilo do autor, já estava de olho em um novo livro do nipo-britânico pra devorar. Um belo dia, dei a sorte de me deparar com essa edição linda e nova em folha de O gigante enterrado a preço de banana no Sebo Cultura.

Acontece que O gigante enterrado – e eu só entenderia isso na hora de ler – não é o típico livro do Ishiguro. Antes de lançá-lo, nosso escritor e grande ganhador do Prêmio Nobel de Literatura do ano passado passou dez anos em um jejum literário. Depois ou durante essa longa pausa, ele resolveu elaborar uma obra diferente e muito ambiciosa. Não sei se eu estava preparada para esse salto, mas mesmo assim fui lá e me joguei na leitura, né!

O livro apresenta a história de Beatrice e Axl, um casal de idosos que vive em uma aldeia medieval onde todas as pessoas parecem ter perdido ou estar progressivamente perdendo suas memórias: o passado mais remoto já é um mistério para todos e os pequenos acontecimentos recentes são lembrados apenas por alguns. Esse "esquecimento" é atribuído à uma névoa que cobre a aldeia bretã e não se sabe ao certo de onde veio aquilo ou quando começou. Perturbados com essa situação, Axl e Beatrice conseguem recuperar a memória remota de um filho que tiveram e decidem sair de sua terra natal para procurá-lo.

A história tem tom de fantasia: saindo da aldeia, os perigos são muitos, incluindo ogros, dragões, fadas, exércitos inimigos. Nesse ponto, O gigante enterrado tem aquele gostinho de aventura medieval com disputas de espadas entre cavaleiros de terras inimigas e caça a dragões. No entanto, o foco do livro não está em seu universo físico, a meu ver, mas em seu aspecto psicológico: a maneira como se propõe discutir sobre a memória coletiva. 

A memória coletiva consiste no conjunto de lembranças, histórias e tradições que são passadas adiante em determinada comunidade, de modo a preservar suas origens e sua cultura. Em O gigante enterrado, temos uma comunidade que parece ter, ao longo do tempo, distorcido e por fim perdido  de vez sua memória coletiva. O principal motivo pra isso parece ser o caráter negativo dessas lembranças: algo muito ruim foi feito ali, com muitas mortes, e às vezes a única defesa que as pessoas têm contra um evento traumático é o esquecimento. Enquanto Beatrice quer a todo custo reaver suas memórias, Axl acredita que algumas coisas devem ser deixadas para sempre no passado.

Ao longo de sua jornada em busca do filho, o casal principal encontra outros personagens importantes da história, como é o caso do menino Edwin, um garoto rejeitado por sua comunidade por ter sido supostamente mordido por um ogro; o guerreiro Winstan, grande herói ambicioso da aldeia saxã; e Sir Gawain, cavaleiro sobrinho do falecido Rei Artur, que está atrás de uma perigosa dragoa. Tais personagens são tão importantes para a história quanto Beatrice e Axl e os considerei até mais cativantes do que esses protagonistas, apesar de o relacionamento deles consistir em uma das partes centrais da trama e ter lá sua carga poética.  

Unidos pela convergência de seus caminhos, esse grupo diverso enfrenta diversos problemas ao longo da estrada, sofrendo tanto ameaças às suas vidas quanto conflitos de ordem psicológica, ocasionados pelo retorno de algumas memórias e pela rixa existente entre Winstan e Sir Gawain. Mesmo assim, Axl e Beatrice mantém-se lado a lado, cuidando um do outro e alimentando esperanças de encontrar um filho do qual eles praticamente não guardam nenhuma lembrança. Recordar um passado doloroso ou não se lembrar de nada, o que é melhor (ou pior)?

Quanto ao estilo, é com certo pesar que conto para vocês que a escrita de Ishiguro não me capturou dessa vez, como havia feito em Um artista do mundo flutuante. Sou uma leitora que ama descrições, de modo que "perder" longos parágrafos assim – quando bem feito – não costuma ser um problema pra mim, mas dessa vez foi. Achei a narrativa muito prolixa, de modo que às vezes sentia vontade de pular algumas páginas quando as coisas estavam muito "mornas" e partir logo para um momento de maior ação ou drama. Isso fez com que eu demorasse muito mais do que o normal para terminar a leitura, algo que me deixa desapontada comigo mesma e com o livro.

A obra é dividida em quatro partes: essa trajetória mais lenta da narrativa predomina nas duas primeiras. O fato de, no início, você não saber de nada do que está acontecendo e ficar tão confusa quanto os próprios personagens esquecidos também não ajuda. As coisas melhoram na terceira e quarta partes, com novas revelações interessantes, e a obra é fechada com um final do qual eu, particularmente, gostei bastante, achei muito sensível. Deu até pra perdoar um pouco as partes menos interessantes do caminho.

O gigante enterrado é um livro que eu recomendaria para os fãs de épicos medievais que estão interessados em experimentar algo um pouco diferente do comum: uma história de aventura que foca menos na fantasia e em "lutinhas" de cavaleiros e mais no aspecto dos sentimentos, nas questões referentes à memória, família, amor, guerra, morte. É uma história inteligente e cheia de simbolismos interessantíssimos, mas acredito que se você não for especialmente fã da ambientação e só cair de pára-quedas nas páginas desse livro – como eu fiz, de certa forma –, talvez acabe não o aproveitando tanto. 

Literalmente Amigas, de Laura Conrado e Marina Carvalho

18 setembro 2018


O livro Literalmente Amigas é novo chick-lit nacional do momento, e se você é apaixonado pelo mundo literário, deveria dar uma chance para essa leitura.

Há remédio mais eficaz que as palavras certas?

Gabi e Lívia se conheceram através do Orkut, isso mesmo, aquela velha e já extinta rede social. Desde então são amigas e resolveram criar um blog, o Literalmente amigas, para compartilhar as suas opiniões com outros aficionados por leituras.

Gabi está concluindo um mestrado em artes, e em meio a loucura de término de curso, ela consegue conciliar a sua vida amorosa que vai muito bem obrigada com o seu namorado Léo, o blog, e sua amizade com Lívia. Agora no quesito financeiro, Gabi tem que fazer um belo de um malabarismo para conseguir pagar suas contas e principalmente o apartamento em que vive.

Já Lívia que tem 25 anos, trabalha na editora Sociedade dos Livros, tem o seu apartamento, e também dá conta de alimentar o blog. Porém, Lívia acabou de levar um pé na bunda do seu namorado, agora ex. Pra completar um amigo do seu melhor amigo, está passando um tempo no apartamento dele, e ele é um pedaço de mal caminho, mas é gay, então só em sonho Lívia terá esse cara.

Mas um email da famosa editora Espaçonave, fará com que a vida de Lívia e Gabi mude. O email anuncia que a editora está com uma seleção aberta para trabalhar lá, e as duas que amam livros e a Espaçonave é a editora favorita das duas, vão participar desse processo seletivo. O problema é que nenhuma das duas comentaram que se inscreveram na seleção. Será que isso vai atrapalhar a amizade das duas?

Ficha Técnica:
Título: Literalmente amigas | Autoras: Laura Conrado e Marina Carvalho | Ano: 2018 | Páginas: 335| Idioma: português | Editora: Bertrand Brasil
Como eu amei esse livro! Foi uma leitura muito divertida, o tipo de livro que provavelmente Sophie Kinsella poderia ter escrito. Mas ele foi escrito por duas autoras incríveis e brasileiras, a Laura Conrado e a Marina Carvalho. Acho que a escrita das duas juntas fluiu muito, é como se estivessem em sincronia e saiu um lindo romance.

A narrativa é em primeira pessoa e os capítulos são alternados pelo ponto de vista da Gabi e da Lívia. Além de me divertir, me encantei com todas as referências ao mundo literário. Além disso, as autoras trazem a tona um tema muito bacana que é a mulher no estádio, e mostra através de um grupo de mulheres que nós não estamos sozinhas e podemos sim gostar de futebol. E é claro que eu amei essa parte, pois sou apaixonada por futebol, mas já sofri preconceito por gostar.
O livro também nos mostra que devemos encontrar o que realmente nos faz feliz. Amizade aqui é o que não falta. E com certeza um romance divertidíssimo. Adorei toda a história e recomendo muito.

Amor imenso, de Penelope Ward

13 setembro 2018


Olá leitores! hoje vou falar um pouco sobre Amor imenso, um romance maravilhoso da autora Penelope Ward, queridinha dos que amam o gênero. Essa foi a minha primeira experiência de leitura com os livros da autora e só posso dizer que amei. 

A escrita da Penelope me surpreendeu muito, sempre tinha ouvido falar bastante da autora e Amor imenso foi uma surpresa positiva para mim. Confesso que fiquei chateada pelo fato de o livro não ser uma série e ter outros volumes, afinal, a história e os personagens são muito cativantes.

Amor imenso é uma leitura leve e super fluída, um romance clichê e divertido que marcou meu coração.


Ficha técnica:
Título: Amor Imenso| Autor: Penelope Ward | Ano: 2017 | Páginas: 270 | Idioma: português | Editora: Editora Planeta.


A história começa quando Nana, deixa uma claúsula em seu testamento para sua neta Amélia. Essa cláusula basicamente diz que ela e Justin, seu melhor amigo de infância, herdaram a casa de praia e terão que dividi-la. Entretanto, Amélia e Justin não se falam desde a adolescência, onde Amélia praticamente abandonou Justin e fugiu, deixando tudo para trás.

O que Amélia nunca entendeu, é que seu melhor amigo sempre foi completamente apaixonado por ela, assim, ao fugir, ela acabou magoando Justin de uma forma irreparável, no qual guardou ressentimento durante anos. Quando finalmente se encontram na casa de praia, Amélia se sente totalmente despreparada e confusa, sua vida é um tanto quanto bagunçada, já Justin parece ter tudo ao seu controle, afinal, ele tem uma linda namorada e uma carreira na qual ama.

Durante o tempo que ficam na casa de praia, Justin e Amélia, fazem de tudo para não se matarem ou se beijarem, afinal, existe um sentimento muito intenso e antigo envolvido. Ele faz de tudo para irritar Amélia, que não se deixa abalar tão fácil, pois ela nunca consiguiria odia-lo.

Quando os dois começam a se acertar, uma pessoa inesperada chega em suas vidas e vira tudo de cabeça para baixo, testando todos os seus sentimentos.

''Eu nunca odiei você. Não poderia ter odiado nem se tentasse. E acredite, eu tentei.''.  

O livro tem vários flashback, mostrando a adolescência dos dois, o que torna a leitura bem divertida. Os personagens são cativantes, é impossível não se apaixonar por Justin, um músico super descolado, sexy e que tem um coração imenso. Já Amélia, é uma personagem muito forte e determinada.

Minha leitura foi super positiva, é um livro que realmente recomendo, principalmente por se tratar de uma narrativa fluída e divertida. Amor imenso não te deixa com ressaca literária, mas com um gostinho de quero mais.

A história de Amélia e Justin tem muito a nos ensinar, principalmente como o amor pode ser um sentimento tão sincero e puro. Um amor genuíno e realmente imenso é o sentimento abordado nesse livro. Duas pessoas separadas e unidas pelo destino, duas pessoas destinadas a estarem juntas, e nada como o tempo para curar todas as feridas e superar as inseguranças do passado.

Heroínas, de Laura Conrado, Pam Gonçalves e Ray Tavares

10 setembro 2018


Heroínas é uma antologia, onde as autoras trouxeram adaptações das famosas histórias de Os três mosqueteiros, O rei Arthur e os cavaleiros da Távola Redonda e Robin Hood.

O primeiro conto do livro é da Laura Conrado, onde ela adaptou a história dos Três mosqueteiros. Então no conto Uma por todas, todas por uma, conhecemos Daniela D'artgnan que uma adolescente que ama os animais e pretende cursar veterinária. Daniela decide ser voluntária na ONG, cujo nome é Mosqueteiros. A garota não consegue entrar de primeira na ONG, pois a vaga de voluntário está aberta para estagiários e Daniela ainda não está na faculdade. Mas o destino se encarregará de colocar as pessoas certas em seu caminho e assim, Daniela e as mosqueteiras terão que salvar a ONG, já que o dono está pretendendo fechá-la.

Esse não foi o meu conto preferido dos três, mas eu gostei. A autora fez um ótimo trabalho na adaptação da história. Esse é o único conto que é narrado em primeira pessoa. As personagens do conto realmente amam os animais e o trabalho que fazem e juntas retribuem esse amor a ONG. E ainda teve uma pitadinha de romance, que ficou bem fofo.

- Quem ama os animais costuma não decepcionar as pessoas - digo com um pequeno sorriso no rosto.

O segundo conto foi escrito pela Pam Gonçalves, onde teve que adaptar a historia de O rei Arthur e os cavaleiros da Távola Redonda. O conto se chama Formandos da távola redonda, e conhecemos a história de Marina. Marina está no último ano do colégio, namora o Guilherme, e recebeu uma missão. O dinheiro que o terceiro ano possuía para bancar a festa de formatura foi roubado, e agora Marina e seu colegas terão que arrecadar uma verba para que eles tenham uma festa digna.

Eu adorei esse conto, foi bem divertido ver os alunos se unindo para conseguir o dinheiro. Aqui também temos romance, mas foi bem diferente e o final maravilhoso. Não conheço a história do Rei Arthur, então não posso fazer comparações.

- As pessoas sempre vão falar alguma coisa. É você quem decide como vai ouvir.

Já o terceiro e último conto, foi escrito pela Ray Tavares que adaptou a história de Robin Hood. Este conto é intitulado de Robin, a proscrita. Somos apresentados a Roberta, uma garota bem inteligente e que é considerada uma cracker, uma espécie de hacker criminoso. Roberta e outros amigos, desviam dinheiro da conta de Pastor Felizzi para ajudar ONGs, instituições carentes, ou seja, quem realmente necessita. Roberta decide participar de um concurso onde os participantes terão que criar um programa, mas isso pode ser uma grande armadilha para pegar Roberta.

Eu já li livros da Laura e da Pam, mas não conhecia o trabalho da Ray, e foi uma surpresa positiva. Dos três esse foi o meu conto favorito. Adorei a ideia que a Ray criou, adaptando o conto original para os dias atuais. Foi muito divertido, ri bastante, teve muita ação. E mais uma vez, um pouquinho de romance que me encantou, fiquei torcendo pelo casal.

Ficha Técnica:
Título: Heroínas | Autoras: Laura Conrado, Pam Gonçalves e Ray Tavares | Ano: 2018 | Páginas: 256 | Idioma: português | Editora: Galera Record

No geral, eu adorei o livro e o mais importante é que as três histórias são protagonizadas por mulheres, onde os contos originais os personagens são homens. Então, na minha visão isso mostrou que a mulher pode estar em qualquer lugar, basta ela querer.

Crônica de um amor louco, de Charles Bukowski

06 setembro 2018


Olá leitores! hoje vou falar um pouco sobre Crônica de um amor louco, de Charles Bukowski. O livro é o primeiro dos dois volumes da obra Ereções, ejaculações, exibicionismo.

Se você conhece um pouquinho do universo literário, com certeza já ouviu falar no polêmico Bukowski. Sua literatura é conhecida por ter um caráter autobiográfico e com temas relacionados a alcoolismo, prostituição, sexo, pessoas miseráveis e experiências infelizes. A escrita do ''velho safado'', como ficou conhecido, é mundialmente apreciada. Seus clássicos possuem muitos admiradores, pelo fato de demonstrar a realidade nua e crua, sem eufemismos ou metáforas.

Após tanto ver e ouvir falar a respeito, resolvi tirar minhas próprias conclusões perante a escrita de Charles Bukowski, dessa forma, esse livro se tornou a minha primeira experiência com a literatura do autor. Confesso que fiquei bem chocada, pois esperava uma coisa totalmente diferente. O livro não me decepcionou, mas também não superou às minhas expectativas, afinal, eu as tinha, já que o autor é tão famoso.


Ficha técnica:
Título: Crônica de um amor louco | Autor: Charles Bukowski ; tradução de Milton Persson | Ano: 2011 | Páginas: 314 | Idioma: português | Editora: Editora L&PM


Crônica de um amor louco é composto por mais de vinte contos, se iniciando com o conto a mulher mais linda da cidade. A primeira história narra a vida de Cass, uma jovem que passou a adolescência no convento. Cada conto possui uma história diferente, no qual Bukowski mergulha na excitação e insanidade. Em geral, os contos são interessantes e engraçados. Todas as histórias envolvem muito sexo, gritaria e bebida.

A narrativa do autor é muito diferente de tudo o que já li, pois utiliza palavras obscenas e até grosseiras para narrar a história, demonstando a frenesi e loucura que está sentindo. Se tem a impressão que o mesmo escreveu tais contos na mesa de um bar, tudo parece muito real. 

Outro fato interessante, é como o autor marginaliza tudo ao ser redor, inclusive si mesmo. Nessa obra, demonstra-se a fragilidade e a decadência do ser humano, expondo a parte inferiorizada e esquecida da sociedade. Ainda, termos como ''pau'', ''xota'' e ''gozada'' são encontradas com muita facilidade nesse livro, ele realmente não utiliza eufemismos ou metáforas para falar o que pensa, tudo é sem pudor.


A minha experiência de leitura foi positiva, como já disse anteriormente, não superou minhas expectativas, mas gostei bastante. Charles Bukowski fez tudo, menos o que eu esperava e talvez essa tenha sido a maior satisfação da leitura. O autor é diferente de tudo o que já li, sua escrita chega a ser fascinante, me senti ao lado dele em um bar.

Recomendo a obra, principalmente para que tenham a experiência incrível de conhecer essa leitura tão enigmática. A escrita de Bukowski não tem medida, não se caracteriza, ela simplesmente é única.

O Planeta dos Macacos, de Pierre Boulle

03 setembro 2018

O Planeta dos Macacos, escrito por Pierre Boulle, é um livro originalmente publicado em 1963, lançado no Brasil em 2015 pela Editora Aleph. 

A história é considerada um clássico e já foi adaptada para o cinema algumas vezes. Sua primeira aparição nas telonas, foi em 1968, tendo ainda continuações em 1970 e 1973 com os títulos "de volta ao planeta dos macacos"(1971) e "Fuga dos Planetas dos Macacos"(1972), e por fim, A batalha dos Planeta dos Macacos (1973). Além desses originais, temos o filme dirigido pelo Tim Burton em 2001, mas os reboots vieram em 2011. A Origem (Rise of the Planet of the Apes, 2011), de Rupert Wyatt, e Planeta dos Macacos: O Confronto (Dawn of the Planet of the Apes, 2014), de Matt Reeves. Em seguida Planeta dos Macacos: A Guerra (War for the Planet of the Apes), de Matt Reeves, lançado em 3 de agosto de 2017.

Sinopse: em um futuro não muito distante, três astronautas pousam em um planeta bastante parecido com a Terra, repleto de florestas luxuriantes e com clima ameno e ar perfeitamente respirável. Mas esse lugar - um pretenso paraíso - não é o que parece. Em pouco tempo, os desbravadores do espaço descobrem a terrível verdade: nesse mundo, seus pares humanos não passam de bestas selvagens a serviço da espécie dominante... os macacos. Desde as primeiras páginas até o surpreendente final - ainda mais impactante que a famosa cena final do filme de 1968 -, O planeta dos macacos é um romance de tirar o fôlego, temperado com boa dose de sátira. Nele, Boulle revisita algumas das questões mais antigas da humanidade: O que define o homem? O que nos diferencia dos animais? Quem são os verdadeiros inimigos de nossa espécie?

Ficha técnica:
Título: O Planeta dos Macacos | Autor: Pierre Boulle | Ano: 2015 | Páginas: 216 | Idioma: português | Editora: Editora Aleph

Eu queria ter lido o livro antes de ter assistido aos filmes. Essa é a primeira coisa que digo sobre essa história. Queria ter tido a oportunidade de imaginar toda essa loucura de forma límpida, sem a interferência do cinema. Não que os filmes sejam ruins, particularmente adoro o reboot mais recente, mas teria sido muito mais incrível ter lido a obra, se eu não soubesse nada dela e pudesse criar minhas próprias imagens.

Toda vez que eu leio um clássico escrito no outro século, eu tento entender o contexto da época e levo tudo em consideraçõe. Hoje em dia, existe milhões de livros que falam sobre extinção da humanidade, distopias e mais distopias pós apocaliptícas e no gênero ficção científica, não é diferente. No entanto, quando Pierre Boulle escreveu esse livro na década de 60, foi um marco, algo extremamente diferenciado e único, dando um grande passo para o gênero ficção científica.

"Era um Gorila, estou lhes dizendo! Do colarinho da camisa saía a hedionda cabeça terminada numa protuberância coberta de pelos negros, com o nariz achatado e as mandíbulas saltadas. Estava ali, de pé, um pouco curvado paara frente, na postura do caçador emboscado, apertando um fuzil em suas longas mãos". Pág. 46.

O Planeta dos Macacos é um livro que traz muitas reflexões sobre a humanidade. O que define um HOMEM? O que nos diferencia dos animais? São perguntas que o autor quer que o leitor pense durante a leitura. E foi justamente isso que aconteceu comigo enquanto eu lia uma das primeiras páginas. O astronauta encontrando uma mulher "humana", mas totalmente selvagem, em um Planeta em que sua espécie não era o ser dominante. No momento já me causou uma estranheza profunda e isso foi maravilhoso. Recentemente li Andróides Sonham com Ovelhas Elétricas? e tive a mesma sensação.
Apesar do gênero assusstar um pouco os leitores que não estão acostumados com ele, a narrativa do Pierre é totalmente fluída e sua escrita é gostosa e acolhedora. O livro não é longo, então a leitura tem um ritmo muito bom, a edição da Aleph ajuda muito o leitor a ter uma experiência diferente enquanto lee essa obra.

Como mencionei acima, é um livro que te faz pensar e que traz consigo personagens muito bem definidos e construídos. Não precisam de uma apresentação ou introdução deles, porque durante a jornada dos personagens, nós conseguimos entendê-los melhor. Uma das coisas mais incríveis, é como esse Planeta é tratado com naturalidade e como o leitor vai descobrindo-o junto com os personagens, o que torna a obra bem mais imersiva. E durante a leitura, você vai percebendo um tom sarcástico e irônico sobre toda aquela situação, o que me deixou sorrindo algumas vezes.

E o final? Bem, o final é um show a parte. Antes de ler, meus amigos me alertaram que eu ficaria impactada com a genialidade do autor, mas não achei que seria tanto. Eu simplesmente achei sensacional todo o "plot twist", toda a verdade que o autor jogou na nossa cara no final dessa história.
Em suma, O Planeta dos Macacos é um livro inteligente, com críticas sociais e raciais, com críticas aos experimentos com animais e que traz com tudo isso, muita reflexão no leitor. O que os seres são capazes de fazer pela luta a sobrevivência? O que nos torna uma sociedade? Uma civilização? Como mencionei acima, é um livro fácil de ler e muito atrativo. Assino em baixo ao considerar um clássico, porque não tem como ler esse livro e não entender toda a genialidade do autor, principalmente ao pensar tão longe em uma "época tão passada".

Se você busca uma leitura de ficção científica que te prenda, te faz pensar e ainda assim questionar várias coisas em nossa sociedade (e nosso futuro), eu indico muito essa obra. 

A Canção de Aquiles, de Madeline Miller

31 agosto 2018


A Canção de Aquiles, escrito pela americana Madeline Miller, é um romance histórico baseado em um clássico grandioso: Ilíada, de Homero, obra épica que faz a reconstituição mitológica da Guerra de Troia. Depois de ter uma boa recepção nos EUA, esse livro – já permitam-me dizer, maravilhoso, e logo você vai ver por quê – foi publicado no Brasil em 2013, pela editora Jangada, e também está conquistando muita gente por aqui.

A Canção de Aquiles é o primeiro romance de Madeline Miller, que é uma estudiosa do latim e do grego antigo, com direito a uma especialização na adaptação de narrativas clássicas para o público moderno em Yale (currículo bonito, né?). Com essa obra, Miller pretendeu fazer uma espécie de "recorte" dentro da Ilíada e adaptar a história dos personagens Aquiles e Pátroclo, companheiros inseparáveis da infância até a Guerra, sobre os quais sempre pairou o rumor de que haveria um algo a mais – um romance. Diversas análises da Ilíada, desde a Antiguidade até os dias atuais, apontam para esse aspecto do mito de Aquiles: qual seria a verdadeira natureza de sua relação com Pátroclo?

Buscando explorar tais aspectos, A Canção de Aquiles nos insere minuciosamente no universo dos dois personagens, começando por sua infância. Nossa história é narrada em primeira pessoa por Pátroclo, tímido príncipe que foi exilado no reino de Fítia depois de matar acidentalmente um garoto. Acolhido pelo rei Peleu, ele vive à sombra deste, e logo acaba por conhecer Aquiles, seu extraordinário filho. Aquiles é um semideus, reconhecido por suas múltiplas habilidades e a quem o futuro parece reservar um destino glorioso: ser o maior guerreiro de seu tempo, duas vezes mais poderoso do que seu pai.

Os dois garotos têm personalidades praticamente opostas: enquanto Pátroclo parece tentar passar despercebido e carrega uma enorme culpa por ser o desgosto de sua família, Aquiles é confiante, sem arrogância, e está sempre sob os holofotes. As diferenças os aproximam e os atraem para a órbita um do outro, mais ainda quando percebem que são capazes de enxergar além da imagem que aquela comunidade projeta sobre eles. Assim, não leva muito tempo para que os laços entre os dois se estreitem: Pátroclo e Aquiles acabam se tornando amigos inseparáveis. 


Ficha Técnica:
Título: A Canção de Aquiles | Autor: Madeline Miller | Ano: 2013 | Páginas: 392 | Idioma: português | Editora: Jangada

Com o passar do tempo, conforme vão crescendo, amadurecendo e aprendendo juntos, Pátroclo começa a ver seus próprios sentimentos atravessarem a linha do amor fraternal para o romântico. É uma narrativa tão sincera e o ato de se apaixonar se desenvolve com tanta, tanta pureza, que chega a doer. Sério, passei quase a leitura inteira de A Canção de Aquiles com uma mão no peito e murmurando "ugh", porque é tão bonito que a gente fica com o peito apertado, e essa foi a minha parte favorita da história: a fase da adolescência e das descobertas. O desenvolver inseguro dos sentimentos de Patróclo e depois a reciprocidade que ele encontra em Aquiles, que também só tem olhos para ele – e pra Guerra, mas a gente fala disso daqui a pouco –, é de fazer suspirar. Honestamente, sou uma pessoa difícil para romances, porque não costumam me convencer com facilidade, mas esse caminhou de maneira tão natural e bela que fui obrigada a me render.

O aspecto romântico, no entanto, não nos deixa esquecer que essa é uma história sobre a Guerra de Troia. O leitor se apega e torce pelos personagens, mas logo é lembrado de que eles estão diante de circunstâncias muito complicadas. Aquiles foi feito para a Guerra e não tem como – nem quer – escapar dela. Há um destino a se cumprir, uma lenda a ser registrada para a posteridade, um nome a ser lembrado com glória. Assim, Aquiles e Pátroclo se encaminham para a sangrenta Guerra de Troia. Tétis, a mãe divina de Aquiles, que nunca gostou de sua proximidade com Pátroclo e sempre tentou distanciá-los, alimenta o orgulho do filho, orgulho este que pode levar tanto à glória, quanto à ruína. 

Um dos maiores destaques dessa obra é a possibilidade que temos de ver além da imagem do "Aquiles-herói": vendo-o através do olhar de Pátroclo, Aquiles é  humano, amável e corruptível. Tão humano que às vezes é possível odiá-lo, odiá-lo por seu orgulho, por suas escolhas, por se deixar manipular por Tétis, por buscar cegamente uma reputação que pode arruiná-lo. Nos entristecemos ao perceber que, por seu desempenho na Guerra, o semideus será conhecido como uma lenda, como um herói; entretanto, nunca enxergarão quem ele realmente era, o Aquiles que só Pátroclo conhecia, por trás de tudo isso. E vice-versa: Aquiles também conhece Pátroclo de uma maneira que ninguém mais conhece, amando-o por sua coragem, gentileza e generosidade. É por isso que, mesmo sabendo que pode perdê-lo, Pátroclo está disposto a segui-lo até o fim. 

A Canção de Aquiles é um romance que consegue realmente inserir e prender o leitor na história que pretende contar. A escrita de Miller é muito agradável e especialmente poética, sem ser demasiado complexa ou pretensiosa. É claro que os protagonistas brilham mais do que tudo aqui, mas os outros personagens da Ilíada que nos são apresentados também são bem explorados, assim como a mitologia e todo o contexto do momento, aspecto fundamental do romance histórico. É a segunda vez que leio um romance ambientado na Antiguidade – meu primeiro foi Memórias de Adriano, da Marguerite Yourcenar – e já quero mais. 

Como parte da comunidade LGBT, posso dizer com segurança que é sempre um alívio ler um livro que apresenta um romance homossexual bem-escrito, mas que não se limita a isso: a história tem muitas outras facetas e os personagens são explorados muito além da sua sexualidade – algo que nunca deve ser tomado como o aspecto mais importante da personalidade de alguém. Terminei esse livro com três certezas: a primeira é que quero ler A Canção de Aquiles novamente num futuro próximo. A segunda: não se deve esperar misericórdia dos deuses gregos. E a terceira: o real "calcanhar de Aquiles" foi seu amor por Pátroclo. 

— Cite um herói que tenha sido feliz. Não conseguiria. — Não, não conseguiria. — Sei disso. Os deuses não permitem que sejamos famosos e felizes. Vou lhe contar um segredo. — Conte-me.— Eu serei o primeiro. Jure.— Por que eu devo jurar?— Porque você é a razão. Jure.— Eu juro.