Imagino que várias das pessoas que acessam nosso blog já
tenham ouvido falar de A redoma de vidro,
da norte-americana Sylvia Plath, ou
ao menos tenham escutado o nome da autora por aí, geralmente mais ligado à sua obra poética. Esse é o único romance da
Sylvia - suas outras publicações são todas coletâneas de poemas – e foi
publicado em 1963, pouco antes de ela cometer suicídio, aos trinta anos de
idade, deixando para trás o marido e seus dois filhos pequenos.
A redoma de vidro
é uma narrativa ambientada na década de 1950 que, de início, nos engana quanto
ao seu tema principal: a depressão. Com uma inicial leveza irônica que “morde e assopra”, ela conta a história de Esther
Greenwood, uma jovem talentosa do interior que acaba de ganhar um estágio numa
revista de moda em nada mais, nada menos do que a grande cidade de Nova York.
Esther é brilhante, bonita, parece que “tem tudo para dar certo”; porém, mesmo
rodeada do glamour que esse momento
de sua vida proporciona, ela começa a se sentir cada vez mais vazia e sufocada
dentro de si mesma.
Apesar do fundo complexo, o estilo de Sylvia Plath é
relativamente simples e poético, com pitadas de um humor ácido, fazendo rir
algumas vezes, para em seguida mandar aquele tapa na cara. Pessoalmente, considerei Esther uma personagem muito fácil de se
identificar, não apenas por eu já ter sofrido com a depressão, mas pela postura
que ela adota em várias situações: mais defensiva, tem dificuldade de se
aproximar das pessoas e passa a impressão de ser “fria”. Ao mesmo tempo,
alimenta um desejo de ser escritora que vai se esvaindo conforme ela se vê
perturbada com um questionamento que muitas pessoas enfrentam durante a
juventude: qual é o meu lugar no mundo? Que caminhos devo escolher para o meu
futuro?
Ficha Técnica:
Título: A redoma de vidro | Autora: Sylvia
Plath | Ano: 1963 | Páginas: 274 |
Idioma: português | Editora: Globo Livros, sob o selo
Biblioteca Azul
Esther se vê perdida entre suas vontades pessoais e aquilo
que a sociedade espera dela. Existe ainda o agravante da época: na década de
50, nosso mundo era muito mais machista e havia uma exigência ainda mais forte
quanto aos papéis de esposa e mãe. Deveria Esther lutar para seguir sua
carreira na moda, nos poemas, ou “resolver-se” com um homem, como o repulsivo
Buddy Willard, que é apaixonado pela idealização de mulher dela mas não a
enxerga como realmente é? (Quem nunca teve um relacionamento assim?)
Conforme a narrativa prossegue, nossa protagonista vai se
fechando mais e mais em si mesma, sem receber a ajuda necessária das pessoas em
volta dela – especialmente a mãe, que vê a depressão como “má-vontade”, passei
muita raiva com essa personagem – afundando em um estado severo da doença, o
qual culmina na sua internação em um hospital psiquiátrico. Naquela época, não
se tinha o mesmo conhecimento e cuidado com doenças mentais que se tem hoje, de
modo que os médicos usavam de tratamentos traumáticos como o eletrochoque e
remédios muito pesados. A partir daí, acompanhamos a trajetória de Esther em
sua luta silenciosa, porém constante, para se reerguer e sobreviver não apenas a um espaço hostil, mas também a si mesma.
Muitos apontam que A
redoma de vidro tem caráter autobiográfico para Sylvia Plath, visto que
vários aspectos da obra se assemelham a acontecimentos da vida da própria
escritora, como a faculdade, a revista de moda em Nova York, a doença e a
internação no hospital psiquiátrico. Sylvia chegou a acreditar ter se
recuperado de seu estado depois do período de tratamento, de modo que publicou
seus poemas, casou-se, teve dois filhos e escreveu o romance, antes de sucumbir
de vez à depressão. Mesmo com sua obra escassa, é vista como uma referência literária de sua época e inspirou muitos outros escritores, artistas plásticos e até músicos.
Seu livro trata com uma sinceridade crua e fiel desse
assunto delicado, sendo uma leitura certamente pesada, mas que me agregou muito. No momento atual, em que os debates sobre transtornos mentais – especialmente a própria depressão e questões de ideação suicida – estão se abrindo e existe uma tentativa maior de conscientizar as pessoas sobre esses temas, A redoma de vidro se mostra ainda muito atual e carrega grande valor por ser uma narrativa que não romantiza e nem esconde as dificuldades "debaixo do tapete", da mesma maneira que não busca apontar culpados ou planejar vinganças: é a luta interior contra o vazio exatamente como ela é.
Eu sabia perfeitamente que os carros estavam fazendo barulho, e que as pessoas dentro deles e atrás das janelas iluminadas dos prédios estavam fazendo barulho, e que o rio estava fazendo barulho, mas eu não conseguia ouvir nada. A cidade estava dependurada na minha janela, achatada como um pôster, brilhando e piscando, mas poderia perfeitamente não estar lá, já que não me afetava em nada.



