Quase Memória, de Carlos Heitor Cony


Quase Memória de Carlos Heitor Cony foi o livro surpresa do mês de setembro da TAG – Experiências Literárias. O livro é uma mistura de romance com livro de memórias, mesclando ficção com realidade, e conta a história do jornalista Ernesto Cony Filho, pai do autor de “quase memória”. A história começa quando Carlos recebe um pacote inesperado em sua estadia em um hotel, o remetente estava com o nome de seu pai, já falecido.

Dentro do pacote recebido, há alguns escritos deixados pelo pai, a partir disso, o autor entra em uma bolha de nostalgia e começa a se lembrar (e contar para o leitor), como tudo lembra seu pai, desde a maneira para embrulhar o envelope até a caligrafia. Cony começa então a desenvolver suas memórias em relação ao pai, contando com detalhes sobre o que se lembra e as histórias em que seu pai fez parte. 

Quando comecei a ler o livro, fiquei extremamente surpresa com o que encontrei. Sempre tive um pouco de dificuldade em ler clássicos e literatura brasileira, devido a diferença muito grande de linguagem que estou acostumada (YA contemporâneo, fantasia, sci-fi, etc). Encarei a obra como um desafio e sai extremamente satisfeita com o que encontrei. 

"Prefiro classificá-lo como "quase romance" - que de fato é. Além da linguagem, os personagens reais e irreais se misturam, improvavelmente, e, para piorar, alguns deles com os próprios nomes de registo de civil. Uns ou outros são fictícios. Repetindo o anti herói da história, não existem coincidências, logo, as semelhanças, por serem coincidências, também não existem". C.H.C

O autor, ao narrar as histórias do pai, mostra como era a vida do mesmo e, portanto, tudo é baseado na realidade, das memórias, mas a realidade vai até um certo ponto, visto que é a visão do filho que temos ali, uma visão não tão confiável dos fatos, sendo o autor comprometido emocionalmente sobre o personagem de suas histórias. Sendo muito familiar, o leitor sente a carga afetiva contida nas páginas, mas a história ainda não perde um tom sutil de ironia, dando a leveza que uma crônica precisa. 

O livro foi lançamento em 1995 e chegou a ganhar o prêmio Jabuti de literatura no ano seguinte. Para mim, a narrativa do autor foi o que me conquistou. Leve, ágil, fluída. A escrita de Cony é gostosa e imersiva, me deixando completamente fissurada nas histórias contadas sobre seu pai. Apesar de ter lido o livro de forma rápida, pude saborear lentamente cada pedaço da obra, me deixando imersa e feliz ao encontrar algo tão bom e acrescentador. As histórias de seu pai sempre muito bem contadas e, mesmo por horas sendo histórias consideradas bobas e ingênuas, nós sentimos o saudosismo nas palavras do autor e o quão importante são essas memórias.

Em síntese, “Quase Memória” foi um livro totalmente importante para o meu amadurecimento literário. Pude estender meu conhecimento sobre literatura, apenas lendo essa obra. Além disso, a revista da TAG do mês traz bastante informações sobre a obra, o autor e até mesmo outros autores como Lima Barreto¹. Gostei bastante da maneira como o autor abordou e contou essa história, é realmente um livro muito bom tecnicamente e emocionalmente, porque envolve o leitor de uma forma muito natural. Sem dúvida alguma esse livro é uma experiência metalinguística cheia de surpresas que vale a pena ter na cabeceira da cama.

Gostaria de deixar meus parabéns para a TAG e a Editora Nova Fronteira pelo incrível trabalho gráfico e de diagramação. A obra está linda e fazendo jus ao que o autor se propor a propagar ao contar sua história.

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¹Afonso Henriques de Lima Barreto Rio de Janeiro, 13 de maio de 1881 — Rio de Janeiro, 1 de novembro de 1922) mais conhecido como Lima Barreto, foi um jornalista e escritor que publicou romances, sátiras, contos, crônicas e uma vasta obra em periódicos, principalmente em revistas populares ilustradas e periódicos anarquistas do início do século XX. A maior parte de sua obra foi redescoberta e publicada em livro após sua morte.

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