Deveríamos...



Era uma sexta feira à noite.  Eu não podia mais com o meu cansaço existencial e mental. Cheguei do trabalho no ápice da minha tortura diária, não poderia mais me equivocar da maneira que aconteceu hoje, quando um sócio cara de pau tentou me burlar para conseguir um documento. Eu não aguento mais essa rotina enfadonha e maçante que me propus simplesmente porque me pagavam melhor. Agora, sento-me nesta mesa que comprei em uma loja de móveis usados, pego minha caneta, meus rascunhos e escrevo. Escrevo para me libertar desse reboliço e confusões que andam vagando pela minha mente.
Às vezes, sinto que toda a confusão existencial que me encontro se da pelo fato de não me sentir boa o suficiente para as coisas. É quase como você se submeter a uma pessoa que não ama, só porque ela o ama. É desesperador pensar que estou nessa, só que a pessoa no caso, é a minha vida. E parece que ela não me ama de volta.
Meus dedos andam calejados, assim como minha alma. Desculpe-me pela melancolia excessiva, tenho que parar de transformar minhas dores em quase demasiadamente melancólicas e dramáticas. Por que eu não posso sofrer como pessoas normais? Enchendo a bunda de pinga nos finais de semanas e depois curtir uma ressaca (existencial claro) durante os outros dias? Não, eu me sento aqui, nessa mesa comprada em uma loja de móveis usados, só pra realçar e reafirmar como minha vida é enfadonha e triste.
Será que a calmaria virá? Pergunto-me todas as vezes que me pego submersa a estes pensamentos. Quando terei coragem de engolir de vez essa tristeza tosca e me libertar desse trabalho mesquinho, dessa vida medíocre e partir rumo ao desconhecido, ou melhor, rumo ao que eu quero conhecer. Quero coisas novas, novos filmes, novas séries, novos amores, novas transas, novos cafés, novas paisagens... Quero conhecer tudo o que esse mundo tão bem representado pela mídia tem a me oferecer. Quero saber como é pisar os pés na areia gelada e não se sentir engolida por ela. Quero espairecer sobre a grama verde e molhada de uma montanha e respirar fundo quando o vento bater contra o meu rosto. Permitir-me senti-lo... O vento.
Você passa todos os anos da sua vida se dedicando a sentir a felicidade, mas raramente encontra-a. A felicidade plena vem quando estamos plenos com nós mesmos. E como ficar assim, de bem com a gente, se tudo ao nosso redor conspira contra? O ar fresco até tenta entrar pela janela, mas na maioria das vezes, nós mesmos a fechamos, por medo de que vá bagunçar toda sua organização. Seu conforto vale mais que sua felicidade? Tenho pensado muito nisso. Estamos tão confortáveis com a ideia de não mudar, que quando esse sopro fresco vem de encontro a nós, sentimos que estamos a beira de um abismo. Não conseguimos enxergar o chão, não podemos saber o que nos espera no final quando saltarmos dali, mas deveríamos arriscar. Deveríamos... 

6 comentários

  1. Oi Anne. No ano passado eu me sentia como vc. Mas me libertei. Na verdade fui obrigada, pois tive q mudar de cidade.Foi bem difícil, ainda é.
    É bom arriscar. Tente! Foque na felicidade e deixe o vento entrar pela janela e bagunçar tudo!
    Beijo!

    www.vintagemoderno,com.br

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    1. Eu queria me libertar e deixar esse bendito vento entrar, mas fico colocando obstáculos porque parece mais ''confortável''. Obrigada <3

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  2. Que texto lindo! Quanto mais procuramos a felicidade, mais ela foge da gente. O que deveríamos realmente fazer é viver um dia de cada vez e nos permitir sentir tudo o que as 24 horas inteiras podem nos proporcionar. Porque afinal, ser feliz não é simplesmente sorrir em algum dia, mas sorrir pela vida toda por ter aproveitado todo o tempo que conseguiu e inclusive, rir dos dias ruins e perceber o quanto foram precisos para nos tornarmos quem somos. Alimente sua essência, sorria hoje lembrando das coisas que deram certo e ria do que deu errado. Amanhã é incerteza.

    P.S.: Amo pessoas que escrevem <3

    Beijos, Gabbi.
    meiahoraemparis.com.br

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    1. Sim, ela foge mesmo. Mas enquanto a gente não estiver bem conosco mesmo, ela sempre vai escapar pelos nossos dedos. :( E adorei tuas palavras, gostaria de coloca-las mais em pratica haha mas é muito difícil me abstrair de todas as coisas negativas que tem rondado minha vida, mas estou tentando.

      Obrigada. <3

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  3. Anne Camus Sartre, gosto muito dos seus solilóquios existencialistas. Estou lendo todos e adorando. Abraço.

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